terça-feira, 26 de janeiro de 2010

"Sempre estiveram ali..."

Um dia talvez minha capacidade intelectual e emocional de mera humana compreenda a ligação entre duas pessoas. Vivi e vivo intensamente minhas histórias de amizade, mas nunca entendi ao certo como e porque começaram. Simplesmente existiram pessoas que cruzaram o meu caminho e foram capazes de mudar toda uma vida. Analiso determinadas atitudes em determinados momentos onde, algumas dessas pessoas estiveram presentes com seus conselhos. Dessa forma, penso na hipótese de que não estivessem participado e vejo que talvez não saberia nem por onde começar a resolver tal problema. É assim que resumo meus verdadeiros amigos: Peças fundamentais que ajudam a montar o quebra-cabeça de minha existência.

"Sempre estiveram ali.
Com abraço apertado e sorriso no rosto ao me ver chegar.
Com coração machucado por me ver machucada.
Com o coração ferido pedindo meu consolo.
Com o espírito em festa ao ver minhas conquistas.
Com louca vontade de comemorar comigo as próprias conquistas.
Com compreensão para os meus erros.
Mas também prontos para repreender-me, ainda que isso doesse.
Com um telefone no ouvido para ouvir minhas lágrimas.
Com o mesmo para ouvir uma novidade que não conseguiria esperar.
E me ligando quando resolvia sumir por uns tempos.
Quando me afastei, souberam com o seu jeitinho ir me buscar.
E quando se afastaram, não aguentava e corria ao encontro deles.
Quando errávamos, com o nosso jeito, soubemos nos desculpar.
Nada ficou pendente.
Nada existia entre nós além de um amor imenso.
Foi com eles que vivi os momentos mais intensos de minha vida.
E independente da situação, mesmo nas mais difíceis eu soube que
sempre estiveram ali."
Jamile Grimm

BONS AMIGOS
[Machado de Assis]

"Abençoados os que possuem amigos, os que os têm sem pedir.
Porque amigo não se pede, não se compra, nem se vende.
Amigo a gente sente!
Benditos os que sofrem por amigos, os que falam com o olhar.
Porque amigo não se cala, não questiona, nem se rende.
Amigo a gente entende!
Benditos os que guardam amigos, os que entregam o ombro pra chorar.
Porque amigo sofre e chora.
Amigo não tem hora pra consolar!
Benditos sejam os amigos que acreditam na tua verdade ou te apontam a realidade.
Porque amigo é a direção.
Amigo é a base quando falta o chão!
Benditos sejam todos os amigos de raízes, verdadeiros.
Porque amigos são herdeiros da real sagacidade.
Ter amigos é a melhor cumplicidade!
Há pessoas que choram por saber que as rosas têm espinho,
Há outras que sorriem por saber que os espinhos têm rosas!"

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

O Búfalo - Clarice Lispector


"Mas era primavera. Até o leão lambeu a testa glabra da leoa. Os dois animais louros. A mulher desviou os olhos da jaula, onde só o cheiro quente lembrava a carnificina que ela viera buscar no Jardim Zoológico. Depois o leão passeou enjubado e tranqüilo, e a leoa lentamente reconstituiu sobre as patas estendidas a cabeça de uma esfinge. "Mas isso é amor, é amor de novo", revoltou-se a mulher tentando encontrar-se com o próprio ódio mas era primavera e dois leões se tinham amado. Com os punhos nos bolsos do casaco, olhou em torno de si, rodeada pelas jaulas, enjaulada pelas jaulas fechadas. Continuou a andar. Os olhos estavam tão concentrados na procura que sua vista às vezes se escurecia num sono, e então ela se refazia como na frescura de uma cova.
Mas a girafa era uma virgem de tranças recém-cortadas. Com a tola inocência do que é grande e leve e sem culpa. A mulher do casaco marrom desviou os olhos, doente, doente. Sem conseguir — diante da aérea girafa pousada, diante daquele silencioso pássaro sem asas — sem conseguir encontrar dentro de si o ponto pior de sua doença, o ponto mais doente, o ponto de ódio, ela que fora ao Jardim Zoológico para adoecer. Mas não diante da girafa que mais era paisagem que um ente. Não diante daquela carne que se distraíra em altura e distância, a girafa quase verde. Procurou outros animais, tentava aprender com eles a odiar. O hipopótamo, o hipopótamo úmido. O rolo roliço de carne, carne redonda e muda esperando outra carne roliça e muda. Não. Pois havia tal amor humilde em se manter apenas carne, tal doce martírio em não saber pensar. Mas era primavera, e, apertando o punho no bolso do casaco, ela mataria aqueles macacos em levitação pela jaula, macacos felizes como ervas, macacos se entrepulando suaves, a macaca com olhar resignado de amor, e a outra macaca dando de mamar. Ela os mataria com quinze secas balas: os dentes da mulher se apertaram até o maxilar doer. A nudez dos macacos. O mundo que não via perigo em ser nu. Ela mataria a nudez dos macacos. Um macaco também a olhou segurando as grades, os braços descarnados abertos em crucifixo, o peito pelado exposto sem orgulho. Mas não era no peito que ela mataria, era entre os olhos do macaco que ela mataria, era entre aqueles olhos que a olhavam sem pestanejar. De repente a mulher desviou o rosto: é que os olhos do macaco tinham um véu branco gelatinoso cobrindo a pupila, nos olhos a doçura da doença, era um macaco velho — a mulher desviou o rosto, trancando entre os dentes um sentimento que ela não viera buscar, apressou os passos, ainda voltou a cabeça espantada para o macaco de braços abertos: ele continuava a olhar para a frente. "Oh não, não isso", pensou. E enquanto fugia, disse: "Deus, me ensine somente a odiar."
"Eu te odeio", disse ela para um homem cujo crime único era o de não amá-la. "Eu te odeio", disse muito apressada. Mas não sabia sequer como se fazia. Como cavar na terra até encontrar a água negra, como abrir passagem na terra dura e chegar jamais a si mesma? Andou pelo Jardim Zoológico entre mães e crianças. Mas o elefante suportava o próprio peso. Aquele elefante inteiro a quem fora dado com uma simples pata esmagar. Mas que não esmagava. Aquela potência que no entanto se deixaria docilmente conduzir a um circo, elefante de crianças. E os olhos, numa bondade de velho, presos dentro da grande carne herdada. O elefante oriental. Também a primavera oriental, e tudo nascendo, tudo escorrendo pelo riacho.
A mulher então experimentou o camelo. O camelo em trapos, corcunda, mastigando a si próprio, entregue ao processo de conhecer a comida. Ela se sentiu fraca e cansada, há dois dias mal comia. Os grandes cílios empoeirados do camelo sobre olhos que se tinham dedicado à paciência de um artesanato interno. A paciência, a paciência, a paciência, só isso ela encontrava na primavera ao vento. Lágrimas encheram os olhos da mulher, lágrimas que não correram, presas dentro da paciência de sua carne herdada. Somente o cheiro de poeira do camelo vinha de encontro ao que ela viera: ao ódio seco, não a lágrimas. Aproximou-se das barras do cercado, aspirou o pó daquele tapete velho onde sangue cinzento circulava, procurou a tepidez impura, o prazer percorreu suas costas até o mal-estar, mas não ainda o mal-estar que ela viera buscar. No estômago contraiu-se em cólica de fome a vontade de matar. Mas não o camelo de estopa. "Oh Deus, quem será meu par neste mundo?"
Então foi sozinha ter a sua violência. No pequeno parque de diversões do Jardim Zoológico esperou meditativa na fila de namorados pela sua vez de se sentar no carro da montanha-russa. E ali estava agora sentada, quieta no casaco marrom. O banco ainda parado, a maquinaria da montanha-russa ainda parada. Separada de todos no seu banco, parecia estar sentada numa Igreja. Os olhos baixos viam o chão entre os trilhos. O chão onde simplesmente por amor — amor, amor, não o amor! — onde por puro amor nasciam entre os trilhos ervas de um verde leve tão tonto que a fez desviar os olhos em suplício de tentação. A brisa arrepiou-lhe os cabelos da nuca, ela estremeceu recusando, em tentação recusando, sempre tão mais fácil amar.
Mas de repente foi aquele vôo de vísceras, aquela parada de um coração que se surpreende no ar, aquele espanto, a fúria vitoriosa com que o banco a precipitava no nada e imediatamente a soerguia como uma boneca de saia levantada, o profundo ressentimento com que ela se tornou mecânica, o corpo automaticamente alegre — o grito das namoradas! — seu olhar ferido pela grande surpresa, a ofensa, "faziam dela o que queriam", a grande ofensa — o grito das namoradas! — a enorme perplexidade de estar espasmodicamente brincando faziam dela o que queriam, de repente sua candura exposta. Quantos minutos? os minutos de um grito prolongado de trem na curva, e a alegria de um novo mergulho no ar insultando-a com um pontapé, ela dançando descompassada ao vento, dançando apressada, quisesse ou não quisesse o corpo sacudia-se como o de quem ri, aquela sensação de morte às gargalhadas, morte sem aviso de quem não rasgou antes os papéis da gaveta, não a morte dos outros, a sua, sempre a sua. Ela que poderia ter aproveitado o grito dos outros para dar seu urro de lamento, ela se esqueceu, ela só teve espanto.
E agora este silêncio também súbito. Estavam de volta à terra, a maquinaria de novo inteiramente parada.
Pálida, jogada fora de uma Igreja, olhou a terra imóvel de onde partira e aonde de novo fora entregue. Ajeitou as saias com recato. Não olhava para ninguém. Contrita como no dia em que no meio de todo o mundo tudo o que tinha na bolsa caíra no chão e tudo o que tivera valor enquanto secreto na bolsa, ao ser exposto na poeira da rua, revelara a mesquinharia de uma vida íntima de precauções: pó de arroz, recibo, caneta-tinteiro, ela recolhendo no meio-fio os andaimes de sua vida. Levantou-se do banco estonteada como se estivesse se sacudindo de um atropelamento. Embora ninguém prestasse atenção, alisou de novo a saia, fazia o possível para que não percebessem que estava fraca e difamada, protegia com altivez os ossos quebrados. Mas o céu lhe rodava no estômago vazio; a terra, que subia e descia a seus olhos, ficava por momentos distante, a terra que é sempre tão difícil. Por um momento a mulher quis, num cansaço de choro mudo, estender a mão para a terra difícil: sua mão se estendeu como a de um aleijado pedindo. Mas como se tivesse engolido o vácuo, o coração surpreendido. Só isso? Só isto. Da violência, só isto.
Recomeçou a andar em direção aos bichos. O quebranto da montanha-russa deixara-a suave. Não conseguiu ir muito adiante: teve que apoiar a testa na grade de uma jaula, exausta, a respiração curta e leve. De dentro da jaula o quati olhou-a. Ela o olhou. Nenhuma palavra trocada. Nunca poderia odiar o quati que no silêncio de um corpo indagante a olhava. Perturbada, desviou os olhos da ingenuidade do quati. O quati curioso lhe fazendo uma pergunta como uma criança pergunta. E ela desviando os olhos, escondendo dele a sua missão mortal. A testa estava tão encostada às grades que por um instante lhe pareceu que ela estava enjaulada e que um quati livre a examinava.A jaula era sempre do lado onde ela estava: deu um gemido que pareceu vir da sola dos pés. Depois outro gemido.
Então, nascida do ventre, de novo subiu, implorante, em onda vagarosa, a vontade de matar — seus olhos molharam-se gratos e negros numa quase felicidade, não era o ódio ainda, por enquanto apenas a vontade atormentada de ódio como um desejo, a promessa do desabrochamento cruel, um tormento como de amor, a vontade de ódio se prometendo sagrado sangue e triunfo, a fêmea rejeitada espiritualizara-se na grande esperança. Mas onde, onde encontrar o animal que lhe ensinasse a ter o seu próprio ódio? o ódio que lhe pertencia por direito mas que em dor ela não alcançava? Onde aprender a odiar para não morrer de amor? E com quem? O mundo de primavera, o mundo das bestas que na primavera se cristianizam em patas que arranham mas não dói... oh não mais esse mundo! não mais esse perfume, não esse arfar cansado, não mais esse perdão em tudo o que um dia vai morrer como se fora para dar-se. Nunca o perdão, se aquela mulher perdoasse mais uma vez, uma só vez que fosse, sua vida estaria perdida — deu um gemido áspero e curto, o quati sobressaltou-se — enjaulada olhou em torno de si, e como não era pessoa em quem prestassem atenção, encolheu-se como uma velha assassina solitária, uma criança passou correndo sem vê-la.
Recomeçou então a andar, agora pequena, dura, os punhos de novo fortificados nos bolsos, a assassina incógnita, e tudo estava preso no seu peito. No peito que só sabia resignar-se, que só sabia suportar, só sabia pedir perdão, só sabia perdoar, que só aprendera a ter a doçura da infelicidade, e só aprendera a amar, a amar, a amar. Imaginar que talvez nunca experimentasse o ódio de que sempre fora feito o seu perdão, fez seu coração gemer sem pudor, ela começou a andar tão depressa que parecia ter encontrado um súbito destino. Quase corria, os sapatos a desequilibravam, e davam-lhe uma fragilidade de corpo que de novo a reduzia a fêmea de presa, os passos tomaram mecanicamente o desespero implorante dos delicados, ela que não passava de uma delicada. Mas, pudesse tirar os sapatos, poderia evitar a alegria de andar descalça? Como não amar o chão em que se pisa? Gemeu de novo, parou diante das barras de um cercado, encostou o rosto quente no enferrujado frio do ferro. De olhos profundamente fechados procurava enterrar a cara entre a dureza das grades, a cara tentava uma passagem impossível entre barras estreitas, assim como antes vira o macaco recém-nascido buscar na cegueira da fome o peito da macaca. Um conforto passageiro veio-lhe do modo como as grades pareceram odiá-la opondo-lhe a resistência de um ferro gelado.
Abriu os olhos devagar. Os olhos vindos de sua própria escuridão nada viram na desmaiada luz da tarde. Ficou respirando. Aos poucos recomeçou a enxergar, aos poucos as formas foram se solidificando, ela cansada, esmagada pela doçura de um cansaço. Sua cabeça ergueu-se em indagação para as árvores de brotos nascendo, os olhos viram as pequenas nuvens brancas. Sem esperança, ouviu a leveza de um riacho. Abaixou de novo a cabeça e ficou olhando o búfalo ao longe. Dentro de um casaco marrom, respirando sem interesse, ninguém interessado nela, ela não interessada em ninguém.Certa paz enfim. A brisa mexendo nos cabelos da testa como nos de pessoa recém-morta, de testa ainda suada. Olhando com isenção aquele grande terreno seco rodeado de grades altas, o terreno do búfalo. O búfalo negro estava imóvel no fundo do terreno. Depois passeou ao longe com os quadris estreitos, os quadris concentrados. O pescoço mais grosso que as ilhargas contraídas. Visto de frente, a grande cabeça mais larga que o corpo impedia a visão do resto do corpo, como uma cabeça decepada. E na cabeça os cornos. De longe ele passeava devagar com seu torso. Era um búfalo negro. Tão preto que à distancia a cara não tinha traços. Sobre o negror a alvura erguida dos cornos.
A mulher talvez fosse embora mas o silêncio era bom no cair da tarde.
E no silêncio do cercado, os passos vagarosos, a poeira seca sob os cascos secos. De longe, no seu calmo passeio, o búfalo negro olhou-a um instante. No instante seguinte, a mulher de novo viu apenas o duro músculo do corpo. Talvez não a tivesse olhado. Não podia saber, porque das trevas da cabeça ela só distinguia os contornos. Mas de novo ele pareceu tê-la visto ou sentido. A mulher aprumou um pouco a cabeça, recuou-a ligeiramente em desconfiança. Mantendo o corpo imóvel, a cabeça recuada, ela esperou.
E mais uma vez o búfalo pareceu notá-la.
Como se ela não tivesse suportado sentir o que sentira, desviou subitamente o rosto e olhou uma árvore. Seu coração não bateu no peito, o coração batia oco entre o estômago e os intestinos. O búfalo deu outra volta lenta. A poeira. A mulher apertou os dentes, o rosto todo doeu um pouco.
O búfalo com o torso preto. No entardecer luminoso era um corpo enegrecido de tranqüila raiva, a mulher suspirou devagar. Uma coisa branca espalhara-se dentro dela, branca como papel, fraca como papel, intensa como uma brancura. A morte zumbia nos seus ouvidos. Novos passos do búfalo trouxeram-na a si mesma e, em novo longo suspiro, ela voltou à tona. Não sabia onde estivera. Estava de pé, muito débil, emergida daquela coisa branca e remota onde estivera. E de onde olhou de novo o búfalo.
O búfalo agora maior. O búfalo negro. Ah, disse de repente com uma dor. O búfalo de costas para ela, imóvel. O rosto esbranquiçado da mulher não sabia como chamá-lo. Ah! disse provocando-o. Ah! disse ela. Seu rosto estava coberto de mortal brancura, o rosto subitamente emagrecido era de pureza e veneração. Ah! instigou-o com os dentes apertados. Mas de costas para ela, o búfalo inteiramente imóvel.
Apanhou uma pedra no chão e jogou para dentro do cercado. A imobilidade do torso, mais negra ainda se aquietou: a pedra rolou inútil.
Ah! disse sacudindo as barras. Aquela coisa branca se espalhava dentro dela, viscosa como uma saliva. O búfalo de costas.
Ah, disse. Mas dessa vez porque dentro dela escorria enfim um primeiro fio de sangue negro. O primeiro instante foi de dor. Como se para que escorresse este sangue se tivesse contraído o mundo. Ficou parada, ouvindo pingar como numa grota aquele primeiro óleo amargo, a fêmea desprezada. Sua força ainda estava presa entre barras, mas uma coisa incompreensível e quente, enfim incompreensível, acontecia, uma coisa como uma alegria sentida na boca. Então o búfalo voltou-se para ela.
O búfalo voltou-se, imobilizou-se, e à distância encarou-a.
Eu te amo, disse ela então com ódio para o homem cujo grande crime impunível era o de não querê-la. Eu te odeio, disse implorando amor ao búfalo.
Enfim provocado, o grande búfalo aproximou-se sem pressa.
Ele se aproximava, a poeira erguia-se. A mulher esperou de braços pendidos ao longo do casaco. Devagar ele se aproximava. Ela não recuou um só passo. Até que ele chegou às grades e ali parou. Lá estavam o búfalo e a mulher, frente à frente. Ela não olhou a cara, nem a boca, nem os cornos. Olhou seus olhos.
E os olhos do búfalo, os olhos olharam seus olhos. E uma palidez tão funda foi trocada que a mulher se entorpeceu dormente. De pé, em sono profundo. Olhos pequenos e vermelhos a olhavam. Os olhos do búfalo. A mulher tonteou surpreendida, lentamente meneava a cabeça. O búfalo calmo. Lentamente a mulher meneava a cabeça, espantada com o ódio com que o búfalo, tranqüilo de ódio, a olhava. Quase inocentada, meneando uma cabeça incrédula, a boca entreaberta. Inocente, curiosa, entrando cada vez mais fundo dentro daqueles olhos que sem pressa a fitavam, ingênua, num suspiro de sono, sem querer nem poder fugir, presa ao mútuo assassinato. Presa como se sua mão se tivesse grudado para sempre ao punhal que ela mesma cravara. Presa, enquanto escorregava enfeitiçada ao longo das grades. Em tão lenta vertigem que antes do corpo baquear macio a mulher viu o céu inteiro e um búfalo."

Permita-se proibir!



"Uma pessoa se torna especial a partir do momento em que você quer que ela seja. Não existe alguém tão perfeito ao ponto de ser insubstituível. Porém, são critérios que devem ser estabelecidos por nós. É dificil acreditar, mas somos sim responsáveis por nossos sentimentos. A decisão de amar, esquecer, odiar... sempre depende de nós. Quando amamos alguém, nos permitimos sentir isso. O problema é que devemos aprender a nos proibir. Em determinadas situações, até os sentimentos mais bonitos podem nos trazer sofrimento, e mesmo que pareça impossível, somos nós mesmos que devemos evitá-los. Permita-se proibir sentir o que te faz sofrer, mesmo que isso tenha lhe proporcionado felicidade anteriormente. Não existe possibilidade do passado influenciar de maneira positiva o presente, uma vez que, as pessoas mudam, os caminhos mudam, e principalmente, os sentimentos mudam...
Não existe fim, e sim um novo começo!"


Jamile Grimm

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Feche os olhos!

"Tinha a venda nas mãos. Sabia exatamente o que aconteceria se a usasse, mas nunca tivera sentido realmente como era estar com ela. Cada vez que a aproximava de seu rosto, em especial de sua maior arma - seus olhos - , sentia um grande desespero. Desistira por diversas vezes e voltava a armar-se prestando atenção em cada movimento ameaçador. Nenhum animal se permite machucar certo? Porém, observar demais prejudica, por ver o que não se deve, sofre, ainda que tal visão seja inofensiva. Até que um dia tomou uma decisão e vendou-se. Não tinha percebido que, por guiar sua vida somente com os olhos, tinha desaprendido a usar armas que criavam situações nada previsíveis (e talvez esse fosse de fato seu maior medo). O coração é uma delas. Às vezes estar vendado pode nos trazer algum benefício, mesmo que este seja somente nos tornar mais humanos. Algumas situações congelam nossos sentidos, nosso lado humano, obrigando-nos a agir como máquinas programadas para não sofrer. Porém, quem não sofre, não sente, e quem não sente, não vive. Não que viver seja exclusivamente um sofrimento, mas ao evitá-lo bloqueamos indiretamente momentos bons e o pior, únicos... Se queres viver, use a venda que tens em suas mãos e divirta-se!"
Isso foi o que eu aprendi em meu 2009!
Sabia que ia sair alguma coisa que prestasse até o ano terminar! rs.
Até 2010 (;

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

O título é criado a partir de uma interpretação pessoal rs.


Acredito que seja um pouco de ignorância comemorar o fim de um ano, já que este é um ciclo criado pelo homem para não se perder na imensidão do tempo (ou simplesmente para não se sentir - embora esteja - perdido). Mas, fugir deste ciclo seria provavelmente fugir dos padrões de nossa sociedade e eu não me arriscaria a tal ponto! rs. Falando um pouco de meu ano, posso resumir à palavra aprendizado. Talvez naão tenha fugido à regra de todos os outros, mas esse aprendizado foi diferente... É estranho saber que por um instante parei de calcular incessantemente cada passo dado e fechei um pouco os meus olhos, para saber onde a maré da vida me levaria. Confesso que me surpreendi bastante. E nem sempre o fato do resultado não ser esperado significa que ele seja ruim... A verdade é que os caminhos nunca deixam de seer trilhados, ainda que muitas vezes você se obrigue a parar de andar. É como se a metáfora sobre a maré anteriormente pudesse ser seguida concretamente, já que você acaba sendo impulsionado por uma força que não é de vontade própria. No meu caso, cruzei os braços, desisti de planejar e principalmente de correr. Porque quando a gente planeja tudo, acaba achando que pode ir mais rápido do que o necessário, esquecendo que os obstáculos nunca são planejados (ou são, maas de maneira errada rs). Estou deixando meu corpo ir no ritmo dessa maré, apreciando bem a paisagem... Pretendo inteferir apenas quando isso me prejudicar de algum modo (ou talvez nem assim rs). 2009 ainda não acabou. Vamos ver se até o dia 31 atualizo com alguma coisa mais interessante! rs.

Já estava cansada de saber sempre do meu amanhã. Eu queria realmente experimentar algo novo, embora soubesse que, com a minha interferência isso não aconteceria. Mas como viver sem interferir em minha vida? Com o tempo eu descobri e confesso que a emoção é sem igual. Dar o passo um, sem a certeza de qual será o passo dois, ou até mesmo, se existirá o passo dois e por esse motivo, aproveitar até o último fio de beleza do passo um... É estranho não saber como agir, e simplesmente, sair andando, em busca da próxima surpresa sem me importar se será boa ou ruim... Na verdade não faz mais diferença porque é vivendo assim que sinto realmente a vida... Creio que este seja de fato o Carpe Diem, que tanto ouvir falar nas aulas de literatura...

Hoje não tem um sentido especial, a não ser para mim. Parece que estou começando a gostar de enigmas... Talvez as pessoas que me conheçam entendam um pouco do que eu quis dizer, mas não completamente! rs. Sem poemas fascinantes também... Amanhã provavelmente posto de novo rs. Bom noite (;

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Lembre de minha vida...

Essa noite lembrei muito de você, e sei o porque. Sabe, já passou muito tempo, os pontos foram colocados em seus devidos lugares, mas para mim serão sempre reticências. Busco motivos para me sentir assim, mas concretos não encontro. É como se fosse uma revolta, parece que nunca entendi e talvez nunca entenda... Sei que o possível foi feito, mas vai parecer sempre o contrário. Vejo seus planos, sua vida, tendo continuidade mas com outras pessoas e isso é estranho. Tudo se tornou diferente. O conformar nem sempre é entender. Que as vidas continuem, mas isso às vezes parece tão injusto, tão egoísta. Dizem que lembrar não faz bem, mas esquecer assim, de uma hora pra outra? Como se nada nunca tivesse aconteciido? Confesso que tudo isso esfriou um pouco o meu coração. Acredito que seja mais fácil viver a distância, assistir de longe o espetáculo da vida... dos outros... onde sentimentos não sejam capazes de me alcançar... Mas estariia indo contra ao que você mesmo me ensinou sem saber, apenas vivendo a sua vida: A arriscar. Essa experiência ainda vai fazer parte da minha vida e muito, principalmente diante do futuro que eu escolhi, mas talvez passar por isso tenha sido essencial... Um último adeus nunca vai ser suficiente. Eu sempre vou escrever sobre você!

"Que todos um dia lembrem que vivi, que sorri,
as palavras ditas por mim.
Seja com lágrimas nos olhos ou gargalhadas,
mas não deixem a morte abafar a vida linda que tive.
Que todos os abraços sejam recordados de maneira que,
sintam a minha presença.
Que olhem para o meu passado e sejam capazes de encontrar belezas e também defeitos,
mas que tenham pelo menos o trabalho de olha-lo.
Não deixem minha vida de lado porque morri.
E ainda assim, olhem para os meus projetos,
tenham a consideração de terminar aqueles que não tive a oportunidade de fazer
e batam palmas para os que obtive sucesso.
Olhem para minha vida, relembrem a minha vida,
mesmo depois de minha morte."

Jamile Grimm

EPÍGRAFE
Manuel Bandeira

Sou bem-nascido. Menino,
Fui, como os demais, feliz.
Depois, veio o mau destino
E fez de mim o que quis.

Veio o mau gênio da vida,
Rompeu em meu coração,
Levou tudo de vencida,
Rugia e como um furacão,

Turbou, partiu, abateu,
Queimou sem razão nem dó -Ah, que dor!
Magoado e só,
- Só! - meu coração ardeu:

Ardeu em gritos dementes
Na sua paixão sombria...
E dessas horas ardentes
Ficou esta cinza fria.
- Esta pouca cinza fria.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

O verdadeiro guerreiro é aquele sem escudo!

"Há muito tempo atrás, existiu um cavaleiro medieval. Toda tropa orgulhava-se dele em batalhas por manter-se de pé e defender seus interesses com unhas e dentes. A cada vitória, o cavaleiro se retirava e passava horas a meditar. Os seus companheiros de guerrilhas nunca entendiam muito bem esse seu jeito fechado, sempre encarando seu escudo e cuidando para que este não ficasse danificado ao ponto de prejudicar suas batalhas. O cavaleiro, apesar do cuidado, o olhava de maneira pesada, como se tivesse em sua frente o maior motivo de sua angústia. Angústia... Esta sim era a palavra certa para definir o coração petrificado do cavaleiro. Certa vez, visando entender seu comportamento, seus companheiros esconderam dele o escudo (que por sua vez, ficava perto do cavaleiro até mesmo fora de batalhas). Ao se dar conta do ocorrido, o procurou bem rapidamente, sem sucesso. Então, saiu. Daquele dia em diante, nunca mais se viu o cavaleiro. O máximo que conseguiram descobrir é que agora levava uma vida tranquila e feliz." Por mais difícil que seja, muitas vezes é necessário desfazermo-nos de escudos que criamos. O colocamos a nossa frente a fim de evitar feridas nas batalhas, porém, acabamos sem forças de tirá-lo e este impede que seja vivida toda uma história que se passa ao seu outro lado...
Jamile Grimm

" Viver é ser outro. Nem sentir é possível se hoje se sente como ontem se sentiu: sentir hoje o mesmo que ontem não é sentir – é lembrar hoje o que se sentiu ontem, ser hoje o cadáver vivo do que ontem foi a vida perdida. "
Fernando Pessoa